Papel das Startups na sociedade pós-moderna

 

No ambiente hipercorporativo, em que vivem hoje a maioria das grandes empresas, um conceito muito estudado nos principais centros tecnológicos do mundo tornou-se condição sine qua non. Conceito capaz de construir e destruir impérios, a inovação, torna-se cada vez mais o centro das atenções das gigantes empresas ao redor do mundo.

Comecemos pelo esclarecimento do conceito. Inovar é o efeito de alterar o que é reconhecido pelo cérebro humano como padrão, gerando valor e resolvendo problemas. Evidentemente, o significado varia conforme o campo em que é utilizado e, neste artigo, será tratado dentro do ecossistema empresarial.

O cérebro humano desenvolveu-se de forma a reconhecer padrões e repeti-los e por este motivo é que o diferente causa estranhamento. Esses padrões formam caminhos neurais e é por isso que reconhecemos essas associações no dia a dia, por esse motivo também é que, por exemplo, no final de semana, fazemos, sem perceber, o caminho do trabalho. Em resumo, o hábito é a manutenção do padrão.

A inovação é resultado de dilemas, ou seja, raciocínio que parte de premissas contrárias excludentes que resulta na escolha não da opção A, nem B, mas da C derivada, necessariamente de ambas, segundo a definição. Utilizando o conceito criado por Luc Ferry, analisemos a ”inovação destruidora” no ecossistema empresarial contextualizado pela situação existente entre as grandes corporações monopolísticas e as startups – estas, empresas que via de regra pertencem ao setor de tecnologia cuja intenção é resolver dilemas por meio de inovação em modelos de negócios, processos, canais, modelos organizacionais com o objetivo de gerar valor para a sociedade, de alto potencial de crescimento e desvinculadas da visão tradicional, voltada única e exclusivamente para o lucro.

A “inovação destruidora” consiste em tornar monopólios obsoletos a partir da inovação, ou seja, os carros elétricos desbancando a indústria petrolífera; trazendo para o ambiente das startups, o Uber desbancando as cooperativas de taxi, mundo a fora; o Airbnb suplantando as grandes redes de hotéis; o Netflix contra as operadoras de TV a cabo e contra a BlockBuster; a briga entre as gigantes de Telecom e o Whatsapp, e assim podemos continuar, até que, como resultado desse processo, todas essas corporações bilionárias vão à falência por não aderirem à inovação, e por se verem engessadas em seus processos bem definidos e padronizados há décadas.

O modelo tradicional está a poucos anos de sucumbir e as empresas que neste se enquadram não terão um futuro diferente. Segundo o CEO da Cisco, ex-maior empresa do mundo, 40% dos negócios irão falir em 10 anos caso continuem acomodados e sem inovar. Serão 50 bilhões de dispositivos conectados à Internet das Coisas em 2020 e 500 bilhões em 2030, o que configura um modo totalmente novo de fazer negócio aumentando a competitividade e exigindo novas formas de lidar com o consumidor hiperconectado.

O indivíduo pós-modermo é caracterizado pela hiperconectividade, detenção dos meios de produção, alto poder de consumo e ausência de ‘’barreiras morais’’ (J. F. dos Santos, 1986), essa caracterização em meio ao contexto empresarial, à inovação e, principalmente, à tecnologia – sendo esta fundamental para caracterizar essa sociedade – mostra a utilidade prática das startups na pós modernidade.

Sendo o acesso ao consumo restrito, porém, importante para essa sociedade, a tecnologia é capaz de democratiza-lo, aumentando a concorrência, e ao mesmo tempo tornando-a menos voraz – utilizando, para corroborar essa polêmica afirmação, o conceito de Nietzsche.

O conceito de jogo de soma zero e jogo de soma não zero, quando aplicado às startups, significa que, ao contrário do modelo tradicional, essas empresas, mesmo tendo concorrência – o que é inerente ao sistema capitalista –, optam por não concentrar suas forças na luta contra os concorrentes, mas sim, lutar por sua fatia do mercado, ou seja, a favor de si mesma, achar uma falha, um problema e resolve-los.

Há duas opções, portanto, ou uma empresa ganha e a outra perde – sendo esta soma zero – ou então as duas ganham – sendo esta não zero, por não exigir, necessariamente, que uma das duas ganhe –, cada uma concentrada no seu segmento, fatia do mercado ou clientes, utilizando-se do conceito de inovação criado por esta empresa.

Resumindo, o papel das startups na sociedade pós-moderna é aumentar a concorrência – o que é bom para os consumidores, que por sua vez têm melhores e mais inovadoras soluções, a menor custo – e diminuindo o poder dos monopólios e oligopólios o que é bom para a maioria das empresas, afinal, monopólios ou oligopólios são poucas empresas que detém grandes participações de mercado, ou, até mesmo mercados inteiros.

Uma das evidências da soma não zero é, por exemplo, nas economias desenvolvidas, em que à medida que crescem, a classe operária tende a diminuir, em função, principalmente, do aumento da produtividade. Esse movimento é uma tendência da sociedade pós-moderna e será acelerada pelas startups, principalmente em função da necessidade de deter os meios de produção, ter acesso ao consumo e estar imerso na tecnologia.

Há um mito, quando se fala de inovação nas empresas, de que a inovação necessariamente exige alto investimento, o que não é verdade. Não exploremos aqui a inovação basal exercida pelas empresas que, por muitas vezes, criam o departamento por uma questão de aumento de seu valor – intangível ou efetivamente valuation.

Muitas vezes esses departamentos não têm participação ativa na melhoria dos produtos, serviços, processos e cultura da empresa e que também têm suas iniciativas barradas pelos departamentos financeiros que não veem o retorno desse investimento como tangível a curto prazo. Essa inovação pode sim ser adquirida a custo baixo, como defende Gustavo Caetano, CEO da SambaTech, escolhida pela FastCompany uma das empresas mais inovadoras do Continente.

Existem algumas formas de obter a inovação a custo baixo, sendo estas, por exemplo, mudar a cultura da empresa para que um departamento de inovação de fato faça a diferença; caso não exista, seja criado, ou até seja apenas liderado por um pequeno grupo de pessoas que não precisam de mais burocracia, departamentos, metas e engessamento. Outra excelente possiblidade é contratar estagiários com esse intuito, pois, ao contrário do que se acredita, estagiários podem ser muito valiosos para uma empresa e há uma reciprocidade.

O jovem, recém saído da faculdade, cheio de ideias novas, com muita vontade, está em busca de uma empresa, mas uma que não o coloque dentro de uma “caixa” e peça para preencher planilhas e entregar relatórios que nem se quer serão lidos, mas sim que o desafie a mudar um processo, a aprender, a gerar resultado fazendo o que os jovens fazem em startups, porém, dentro de uma empresa.

Isso é inovação a custo baixo. Comprar ações ou fazer parcerias com Startups – o que, dependendo da empresa, seus objetivos e poder de compra, pode representar um custo baixo para a representatividade do retorno que terá, o que é uma cultura, no Vale do Silício, por exemplo.

Vamos aos exemplos práticos, é em função de todo esse processo que grandes empresas estão criando suas incubadoras e aceleradoras, que para efeito de curiosidade ambas são instituições criadas para auxiliar startups normalmente em estágio inicial, porém com a diferença no modelo de negócios, incubadoras são, via de regra, instituições sem fins lucrativos, lideradas por gestores experientes e mantidas por instituições de ensino ou instituições públicas e aceleradoras têm fins lucrativos e são mantidas e lideradas por empreendedores e investidores, que ajudam a startup a escalar e esperam retorno sobre a quantia investida.

Por exemplo, o Bradesco criou a InovaBra; a Vivo criou a Wayra; e o Grupo Abril, a Abril Plug n’Play, com a intenção de ficarem próximas dessas novas empresas que revolucionam o mercado inovando, e principalmente, trazerem essa inovação para “dentro de casa”.

Interessante analisar, levando em conta todos os conceitos até então colocados, o comportamento das empresas nesse novo ambiente competitivo. Há empresas que pedem a intervenção do governo para taxar esses novos modelos de negócios – o que é impensável, a partir do momento que deveriam pedir a igualdade tributária para que exista competitividade –, as que vão à falência, as que compram essas startups a partir do momento que a solução destas agregará substancialmente à empresa compradora, e existem aquelas que querem se aproximar das iniciativas inovadoras.

É um tanto evidente quais são os comportamentos que maximizam os recursos à disposição dessas empresas e os que as tornam ineficientes, atrasadas, e menos valorizadas do ponto de vista do consumidor. Você consegue imaginar quantas pessoas deixaram de usar taxi, no Brasil, depois dessa polêmica relativa à proibição do Uber? Imagine o que farão as grandes construtoras quando a Urban 3D (startup que constrói moradias utilizando impressoras 3D, em 3 semanas, 90% mais barato, reciclando os materiais) começar a atuar em poucos meses, como será para as grandes bandeiras de cartões quando o ApplePay ser disponibilizado?

Há uma certa prepotências dessas grandes corporações tentarem impor uma espécie de imutabilidade do setor que controlam e para tal se utilizarem da influência que exercem sobre o setor público. Existe uma mudança iminente. Um fato. É difícil compreender qual é a linha de raciocínio dos líderes à frente dessas empresas que, em vez de estarem ao lado da inovação negam-na.

Não resta nada senão inovar. A internet das coisas está por vir, existe um mercado de mobile crescente, em pouco tempo até os bancos serão mobile – e o Nubank, um banco moible, tem um modelo de negócios que não deixa dúvidas -, ou então nem haverá mais instituições financeiras intermediando as relações de compra com a adesão das Bitcoins, tecnologia digital que permite reproduzir pagamentos eletrônicos P2P.

Para que isso seja aproveitado é necessário investir em inovação, caso contrário não há a chance de continuar competindo em meio à revolução que está acontecendo. Existem inúmeros meios para tal, desde consultorias em inovação até estagiários capacitados e com vontade de inovar.

Inovar é preciso! Reinventar, rever, refazer para que no futuro a inovação torne-se parte do ecossistema empresarial, inerente às práticas, tornando os produtos e serviços democratizados, melhores e mais baratos. Os consumidores, no futuro, terão poder de escolha, os funcionários menos carga horaria e mais produtividade, mais qualidade de vida e por conseguinte, mais felicidade. E viva a tecnologia, afinal, esse é o futuro!

Fonte: Startupi
Autor: ​Giovanni Salvador

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.